Blocos afro usam tradição carnavalesca para falar da identidade e história da cultura africana

05:52 Cultura, Notícias 10/02/2018 - 16h18 Brasília Embed

Juliana Cézar Nunes

Novembro de 1974. Em plena ditadura militar, uma comunidade negra de Salvador, na Bahia, criava o primeiro bloco afro da cidade, inspirado na cultura e religiosidade africana. Movido pelos ideais de Zumbi, Dandara e Mandela, nascia o Ilê Ayê.

 

Sonora: “Começamos a recontar a história do povo negro nessa retomada agora, com toda essa situação de racismo acentuado, principalmente na Bahia, a terra da felicidade, a capital na negritude, quero saber que felicidade é essa e pra quem?”

 

Quem lembra as quatro décadas de história do Ilê Ayê é um dos seus fundadores, Antônio Carlos dos Santos, mais conhecido como Vovô do Ilê. Ele se orgulha do que o bloco faz no carnaval e em todos os dias do ano. A comunidade prioriza a formação cultural de crianças e adolescentes.

 

Sonora: “A maioria dos músicos do Ilê foi formada nessa escola que tira os jovens da marginalidade formando não só artistas, mas cidadãos”.

 

O trabalho do Ilê Ayê inspira músicos em todo o país, e o grupo hoje apadrinha blocos como o afro afirmativo Ilú Inã, de São Paulo. Um dos criadores do Ilú, o percussionista Fernando Alabê, conta que o bloco tenta aproximar a cultura africana das crianças e dos jovens. Exu, o orixá da comunicação, tem um papel especial nos rituais e na festa.

 

Sonora: “E, por conta desse traço identitário, abrimos caminho para a festa. Não é só carnaval, muita ação e atitude.”

 

Ainda em São Paulo, há 12 anos, as mulheres e meninas do Ilú Obá Di Min abrem a sexta de carnaval com tambores e muito axé no centro da cidade. Este ano, elas reverenciam as mulheres quilombolas. Diretora do bloco, Elisabeth Belisário espera que o bloco inspire as meninas negras a afirmar sua identidade e história.

 

No Distrito Federal, o Afoxé Ogum Pá também dialoga com a religiosidade africana para colocar o bloco na rua. Criado pela mãe Dora Ti Oyá, ele surge no contexto do terreiro e de um projeto que, desde 2014, trabalha a musicalização de crianças do Jardim ABC, na Cidade Ocidental, município goiano no entorno do DF.

 

Sonora: “Nós buscamos envolver o público com história e dança, resistência, primeiros afoxés surgiram no movimento negro, que inspirou outros terreiros, algumas mulheres, como Beth de Oxum, Ciça dos Prazeres, todo esse contexto dessa trajetória de resistência. É com isso que trazemos o povo para o nosso lado. Com o toque do afoxé que é muito bom de se ouvir.”

 

No Rio de Janeiro, há três décadas, o bloco Lemi Aiyó também rima carnaval com educação de crianças e adolescentes. Renata Andrade, do Jardim Bangu, entrou no bloco com 9 anos. Hoje, aos 22, é monitora de dança e estuda engenharia da produção.

 

Sonora: “Conheci a dança. Todo mundo do grupo estuda no momento.”

 

A nova geração dos blocos afros já chegou à diretoria de um dos grupos mais importantes da Amazônia: o bloco afro Akomabu, em São Luís.

 

Criado há três décadas, ele tem como base o Centro de Cultura Negra do Maranhão, onde acontecem oficinas e ensaios. O tema do bloco em 2018 é combate ao genocídio da juventude negra, uma sugestão do diretor José Ricardo de Souza Galvão, o Cadu, de apenas 21 anos.

 

Desde os 16 no Akomabu, Cadu passou pelas oficinas de grafitagem e percussão. Hoje, o jovem do Bom Jesus pensa na continuidade do grupo e na resistência negra no carnaval.

 

Sonora: “O grupo me fez um jovem ter um senso crítico, saber analisar e me proporcionou a participação em espaços de decisão política sobre a juventude. A violência aqui nas comunidades é muito grande. Meu bairro é um dos mais violentos. O Akomabu faz esse trabalho contra o extermínio da juventude negra, e tô fazendo esse trabalho de conscientização do empoderamento. A cor dos homicídios no Brasil, a gente sabe que é a cor preta.”

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