Na Trilha da História: O Brasil de um tempo em que a economia se baseou na escravidão

06:26 Educação, Programetes 05/05/2018 - 07h08 Brasília Embed

Apresentação Isabela Azevedo

Olá! Eu sou a Isabela Azevedo e este é o Na Trilha da História. Neste mês em que lembramos a abolição da escravatura, vamos falar sobre a rotina do trabalho forçado nos campos e nos centros urbanos brasileiros, entre meados do século XVI e o final do século XIX.

 

Neste episódio, nosso entrevistado é o historiador João José Reis, doutor em história pela Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, e professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia. Ele é um dos maiores especialistas do Brasil no assunto. Nossa conversa começa falando sobre a idade em que os africanos e descendentes escravizados geralmente começavam a trabalhar.

 

Sonora: “Plenamente pronto para a mão de obra, para entrar no campo, por exemplo, por volta de 14, 15 anos. Mas, antes disso, ele já começava a trabalhar. Desde mais ou menos 8 ou 9 anos, eles trabalhavam na casa grande, em serviços domésticos, coisas miúdas que eles pudessem fazer, assim como também serviam de divertimento para os sinhôzinhos, que era uma espécie de trabalho também."

 

Enquanto no interior poderiam existir grandes engenhos de açúcar ou imensos cafezais dependentes da mão de obra escrava, nas cidades a situação era diferente.

 

Sonora: "Nas cidades, as propriedades escravas eram pequenas. Tinha gente que tinha até mais de 20 nas cidades. Mas, de um modo geral, não passavam de cinco. E a grande maioria tinha um, dois. Entre esses proprietários urbanos, alguns eram ex-escravos. E havia também escravos que eram donos de escravos."

 

Mais de 4 milhões africanos chegaram ao Brasil entre as primeiras décadas do século XVI e meados do século XIX.

 

Sonora: “Mas o fundamental é que o escravo era o melhor investimento que existia. Ninguém comprava uma casa em vez de comprar um escravo. Porque uma casa razoável era o preço de um escravo. Se você colocasse a casa para alugar, você não teria o mesmo retorno que teria se colocasse o escravo para trabalhar. Era o chamado escravo de ganho."

 

Além do investimento, comprar um negro escravizado era subir na escala social.

 

Sonora: “Era uma sociedade escravista em que a posse de outra pessoa escravistas em que a posse de outra pessoa não era um problema moral de alta monta porque todo mundo escravizava todo mundo. Quando as ideias abolicionistas começam a circular, a escravidão começa a entrar no código de repulsa social e moral. Antes disso, era um vale tudo, de certa maneira."

 

Muitos daqueles que foram escravizados se revoltaram, fugiram e formaram comunidades no meio da mata. Eram os quilombos. Zumbi foi o líder quilombola mais famoso, e a comunidade dele resistiu por quase 100 anos.

 

Sonora: “Palmares é algo excepcional não só pela longevidade, não só porque era uma federação de quilombos, mas porque combateu e venceu as grandes potências da época. Quando houve a união das coroas portuguesa e espanhola, eles combatiam as duas principais potências daquela época. Quando os holandeses ocuparam Pernambuco, eles também derrotaram os holandeses. E depois derrotaram muitas vezes os portugueses, sozinhos. É algo extraordinário, realmente épica a trajetória de Palmares."

 

Ao longo do século XIX, algumas leis foram gradualmente reduzindo a escravidão até que, em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que libertou os cerca de 700 mil homens e mulheres que ainda faziam trabalhos forçados.

 

Sonora: “Foi uma insatisfação generalizada. A escravidão já estava totalmente desmoralizada no país. Movimentos sociais espalhados por toda parte, fugas coletivas de escravos, inclusive no oeste paulista, que era a zona mais dinâmica da economia cafeeira na época. Então, foi uma combinação entre um movimento social que tinha numa ponta os escravos e na outra ponta os abolicionistas. Foi um movimento nacional e empolgante, realmente."

 

Esta é foi versão reduzida do Na Trilha da História sobre a escravidão no Brasil. O programa completo tem 55 minutos e traz a entrevista na íntegra com a historiador João José Reis, além de músicas que têm tudo a ver com o nosso tema. Para ouvir, acesse radios.ebc.com.br/natrilhadahistoria/. E se você quiser mandar uma sugestão de tema para o Na Trilha da História, nosso e-mail é culturaearte@ebc.com.br/. Até semana que vem, pessoal!

 

 

 

Na Trilha da História: Apresenta temas da história do Brasil e do mundo de forma descontraída, privilegiando a participação de pesquisadores e testemunhas de importantes acontecimentos. Os episódios são marcados por curiosidades raramente ensinadas em sala de aula. É publicado semanalmente. Acesse aqui as edições anteriores.