Trocando em Miúdo: O Natal e a lata de biscoitos, de como o dinheiro perde seu valor

05:20 Geral, Programetes 25/12/2017 - 02h13 Brasília Embed

Apresentação Eduardo Mamcasz

Estou cá, no conto de Natal da amiga da rádio. Fala do menino de rua que não gosta dela. Ela não dá dinheiro para o pedinte, pelos pequenos serviços. Pois hoje, quase Natal, o ex-menino volta ao jardim, para mim espinhoso. E acontece o que? Eu acho uma lata, sem biscoito. Abro o bilhete da então senhora.

 

Senhora - Eduardinho!

 

É o nome do ex-menino, hoje jornalista de rádio, responsável por este Trocando em Miúdo. Vamos ao bilhete.

 

Senhora - Leia logo. Leia logo.

 

Eduardinho - Pois leio.

 

(Atrás do bilhete, uma nota de R$ 20)

 

Senhora - Eduardinho, eu não te dava dinheiro, mas um prato de comida. Mas te deixo aqui este bilhete. Faça bom uso daqui a 20 anos.

 

Eduardinho - Meu Deus, ela me deu esse dinheiro junto com os biscoitos e eu nem vi! Era um presente pra mim de uma senhora que julgara avarenta.

 

Na verdade, gente, eu não sei se me emociono ou me enraiveço. E se ela tivesse colocado, na lata sem biscoito, US$ 20 no lugar de R$ 20? E se me tivesse dado esses R$ 20 naquela época? Pois vamos às contas, porque eu estudei, faculdade pública, fiz pós-graduação em economia, sei fazer contas complicadas. E, hoje, vivo mais alegre, tá?

 

Escuta só. Se, no lugar daqueles R$ 20, a senhora tivesse colocado, na sua lata sem biscoitos, US$ 20, hoje eu teria R$ 60. Por baixo. Se a senhora tivesse me dado os R$ 20, quando eu era menino pobre de marré, naquela época três notas de R$ 20 davam um salário mínimo. R$ 70. E hoje? Pois para chegar ao salário mínimo, eu preciso mais 34 notas desses mesmos R$ 20. R$ 724.

 

Senhora -  Eduardinho, me escute.

 

Eduardinho - Me escute a senhora, dona Artê. Com estes R$ 20, quando eu era menino pobre de marré, naquela época, eu teria pagado …

 

Senhora - É pago que se diz, menino!

 

Eduardinho - Desculpe. Eu tinha pago 70 passagens de ônibus, naquela época, quando ia a pé, descalço, na chuva, pra escola.

 

(Mas quando a pobre colocou o dinheiro na mão, ele sorriu sem graça… Apenas R$ 1l?)

 

Eduardinho - Pois sim que eu volto aqui… Trabalhar tanto pra ganhar R$ 1. Velha avarenta!

 

Eduardinho - Pois acontece que hoje, tia, com estes R$ 20, eu só pago sete passagens de ônibus.

 

Senhora - É, mas agora, Eduardinho, você está bem de vida. Não anda mais de ônibus. Nem precisa mais desses R$ 20. Então, por que você não faz o seguinte: encontre um menino pobre. Atualize o valor desses R$ 20, já que você tá tão sabido hoje, né, menino?

 

Eduardinho - Pô, tia. Aí, fica difícil. Sabe quanto esses R$ 20, que a senhora escondeu de mim nessa lata sem biscoito, tem 20 anos, nesta lata sem biscoitos, valem hoje?

 

Senhora - Nem imagino.

 

Eduardinho - Pois escute, dona Artê.

 

Senhora - Tô ouvindo, menino.

 

Eduardinho - Aqueles R$ 20, escondidos pela senhora, repito, nesta lata sem biscoito, valem hoje R$ 80.

 

Senhora - Então tá esperando o quê, Eduardinho? Dá logo R$ 100 pro primeiro menino pobre que você encontrar na rua, neste Natal.

 

Eduardinho - Ai, saco!

 

Senhora - Eduardinho, me respeite.

 

Eduardinho - Sim, senhora.

 

Senhora - Quer um biscoito?

 

Eduardinho - Inté e Axé, tia.

 

Senhora - Amém, Eduardinho.

 

Prezada pessoa, ouvinte cidadã, a equipe deste programa deseja um bom Natal para quem está no ouvindo. Que seja um Natal família, todo mundo reunido na paz. Esse é o desejo de toda a equipe que produz. A você, que forma esse grande grupo que nos ouve, que também forma uma grande família.

 

Então, tá. Inté e axé.

 

 

Trocando em Miúdo: Quadro do programa "Em Conta", da Rádio Nacional da Amazônia. Aborda temas relacionados a economia e finanças, traduzidos para o cotidiano do cidadão. É distribuído em formato de programete, de segunda a sexta-feira, pela Radioagência Nacional. Acesse aqui as edições anteriores.

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