Dificuldade de manter filhos na escola, escassez de alimentos e fome fazem venezuelanos migrarem

04:16 Internacional, Especiais 19/05/2018 - 08h43 Brasília Embed

Kariane Costa

Sonora: “Meu filho não ia a escola porque era muito caro. Não era caro o colégio, porque a escola é pública, mas, sim, comprar a merenda, comprar o uniforme, comprar o material escolar. Eu ganhava um salário de 250 mil bolívares, mas o caderno me custava 600 mil bolívares. Impossível.”

 

A crise econômica na Venezuela chegou na educação. Apesar das escolas públicas serem 100% gratuitas, a falta de dinheiro dos país dificulta o acesso dos estudantes.

 

Segundo a Pesquisa Nacional de Condições de Vida da   População Venezuelana, realizada pelas três principais universidades do país, três de cada quatro crianças da população mais pobre entre 3 e 17 anos deixaram de frequentar a sala de aula devido à falta de comida.”

 

Esse foi um dos motivos que levou Evelín García, mãe de quatro filhos, migrar para o Brasil. Ela conta que era difícil mandar os filhos pra escola sem comida.

 

Sonora: “Eles tiveram que deixar a escola, e isso é uma dor muito grande para mim, porque meus filhos eram bons estudantes, tiravam as melhores notas. Mas, quando eles iam para a escola, eles não tomavam café da manhã. E, chegando lá, pediam parte do lanche para os amiguinhos, o que era muito doloroso para mim. Meus filhos praticamente comiam só uma vez por dia. Eu e meu esposo estávamos desempregados, e o pouco que conseguíamos era só para comer uma vez só.”

 

Os venezuelanos perderam, em média, 11 quilos em 2017. Seis em cada dez admitem já terem ido dormir com fome. Os dados rebatem as afirmações do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, de que a pobreza na Venezuela atinge 18% da população. Já os números do estudo apontam que a pobreza chegou a 87% da população em 2017. No comércio, a oferta de alimento é escassa. Alberto Guilar conta que, nos mercados, o que se vê são produtos de limpeza.

 

Sonora: “O mercado daqui é vazio. Só tem produtos de limpeza.”

 

Na área da saúde não é diferente, faltam remédios, materiais cirúrgicos, exames nos hospitais. A Federação Farmacêutica da Venezuela informou que a falta de medicamentos de alto custo chega a 95%, enquanto que remédios de uso continuo, como para hipertensão ou diabetes, a falta é de 85%. A venezuelana Jennifer Bolívar de 28 anos fala como é o atendimento.

 

Sonora: “Nos hospitais, não tem medicamentos. Literalmente as crianças estão morrendo por desnutrição. As mulheres grávidas têm que comprar desde a luva que o médico usa para fazer o exame até o kit básico para fazer o parto. Se você vai tomar uma  injeção você tem que levar  o remédio, a seringa, e o algodão, tudo. E agora teve uma alta da taxa de mortalidade porque pessoas em tratamento de doenças como diabetes, câncer, aids estão morrendo porque não tem remédios para eles. Nós custeamos tudo.”

 

A reportagem procurou a embaixada da Venezuela e eles não quiseram se posicionar sobre o tema.

 

De acordo com o Observatório Venezuelano da Violência, a taxa de suicídio aumentou no país e, além disso, a Venezuela permanece como a segunda nação mais violenta do mundo.

 

Com tantos problemas, para muitos venezuelanos, a única alternativa é deixar a terra natal. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), mais de 1 milhão pessoas já saíram do país.

 

* Produção: Marcelo Brandão, da Agência Brasil

** Sonorizaçãoa: Jaime Batista