Especialistas orientam população a ter cuidado com manuseio de óleo no litoral

06:55 Meio Ambiente, Notícias 25/10/2019 - 10h25 Brasília Embed

Renata Martins

Corpos banhados de óleo, pessoas aflitas tentando tirar urgentemente o petróleo que chega ao litoral brasileiro como uma mancha.

 

Cenas narradas no rádio, mostradas na TV, propagadas pelas redes sociais e grupos de whatsapp, por meio de vídeos de quem viu de perto a ameaça à praia que pode ser seu sustento ou diversão.

 

O petróleo bruto que se espalha na costa do país é uma mistura de mais de uma centena de substâncias químicas em decomposição, material orgânico de 100 milhões de anos. Como tal, têm elementos muito perigosos, alerta o diretor do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Anthony Wong.

 

"Eu vi as fotografias de pessoas e realmente causa enorme preocupação, porque essas substâncias que estão presentes dentro daquela gosma de petróleo são pouco solúveis na água, mas são solúveis, e vão penetrar na pele das pessoas. As pessoas que estão fazendo o socorro nas praias, elas deviam estar paramentadas adequadamente. Sabe aquela roupa de surfista, de neoprene? Senão é como se estivesse tomando banho de querosene, gasolina, óleo diesel e asfalto continuamente."

 

Em apenas uma das mais de 88 cidades atingidas pelas manchas de óleo, São José da Coroa Grande, em Pernambuco, foi registrado, entre os dias 18 e 19 de outubro, seis casos de moradores expostos ao óleo e que apresentaram alguns sintomas como dor de cabeça, dificuldade respiratória, dormência na mucosa, vertigens, irritação e coceira na pele.

 

A professora de inglês Andreia Porto se voluntariou para retirar o piche que chegou da Praia do Paiva e do Porto de Sauípe, em Pernambuco. Ela relata que, como foi muito bem protegida, teve poucas reações. Andreia Porto explica que é preciso manusear o petróleo para retirá-lo do mar.

 

"Você vai pegando com a mão mesmo. Tem que ficar fazendo bolinha com ela. Rodando com ela na mão, porque, se você deixar aquela substância parada na mão ela gruda e não sai da sua luva. Se faz isso na luva, o que não faz com os corais, peixes. Eu fui com roupa, usei luva, usei máscara a todo momento. Eu não senti reações adversas, além do momento, alguma coceira, mas eu passei muito pouco tempo em contato."

 

Andrea estava de botas e recebeu as luvas e máscaras de uma ONG - Organização Não Governamental.

 

Para Edenilson Lima de Jesus, pescador e dono de uma barraca na praia de Mangue Seco, na Bahia, faltou equipamento de proteção. Nicinho, como é conhecido, sentiu os efeitos do contato direto com o petróleo.

 

"Fiquei com as mãos todas coçando, até o dedo ficou comido. Eu pegando o óleo, começou a esquentar, dar aquele calafrio, eu sem saber o que era… mas aí diz: não! É do óleo isso aí, não pegue não. Eu ficava pegando sem saber porque eu queira limpar, a gente precisa pescar, precisa trabalhar. No momento, agora, o pessoal está trazendo luvas, essas coisas, mas pra tipo, pras pessoas que tem barraca de praia, pescador, ninguém aqui foi orientado pra nada.”

 

O Ministério da Saúde divulgou recomendações, como evitar o contato com a substância, a água e o solo das áreas atingidas. O ministro Henrique Mandetta fala sobre esses cuidados.

 

"O que a gente tem visto é que as pessoas às vezes pisam, manipulam com as mãos sem nenhum tipo de proteção. Que elas se protejam. Quando você entra em contato com o óleo - a gente vê pessoas usando benzina, usando solventes pra retirar o óleo, gasolina. A gente orienta que se faça o uso no máximo de óleo mineral, que é aquele óleo de cozinha.”

 

Anthony Wong, que é médico toxicologista, explica que outros vazamentos de petróleo demonstram que a exposição prolongada a esse tipo de material pode levar a intoxicações e desencadear doenças graves.

 

“As pessoas tiveram, inclusive, problemas de sangue, diminuição de imunidade, alergias graves, problemas respiratórios. Pode provocar lesões no pulmão, mas pior que isso, muitas dessas substâncias absorvíveis vai afetar outros órgãos, como coração, fígado, cérebro, principalmente, e com isso podem levar a complicações graves, principalmente para as pessoas idosas e crianças pequenas.”

 

Para Anthony, este vazamento é um desastre ecológico do qual não se pode apontar a extensão e nem por quanto tempo ele ainda vai perdurar.

 

O impacto na cadeia alimentar ainda é uma incógnita.


O médico lembra que, diferentemente de contaminação de água por mercúrio, por exemplo, os animais, neste caso, morrem em decorrência de terem sido envoltos de piche, imobilizando os movimentos e aparelho respiratório. Por isso, o professor afirma ser pudente e não consumir peixes e mariscos dessas áreas.

 

"É de estranhar a não grande quantidade de peixes que morreram, mas é importante lembrar que, eventualmente, eles estarão contaminados e talvez nós vamos ver peixes mortos mais pra frente. É um alerta e antes de dizer que o peixe pode ser consumido ou não é preciso fazer um monitoramento, um acompanhamento desses animais para saber a concentração e o grau de contaminação nesses animais."

 

O Ministro da Saúde, Henrique Mandeta, fala sobre a orientação com relação ao consumo de peixes e mariscos.

 

“A gente orienta cautela, cuidado em relação aos alimentos, porque nós ainda não sabemos quanto desse material está no fundo do mar e se, eventualmente, a cadeia alimentar está se alimentando. A gente está fazendo análises em relação a isso.”

 

O Ministério da Defesa destaca a importância da utilização dos itens de proteção individual, mas alerta que se deve evitar o acesso a áreas de arrebentação ou locais com possibilidade de afogamento e a proximidade de máquinas que estejam operando na limpeza das praias.

 

Quem avistar novas manchas deve fazer contato telefônico por meio do número 185.

 

A reportagem perguntou ao Ministério do Meio Ambiente sobre a compra e a distribuição de equipamentos de proteção individual para servidores e voluntários, mas não obteve retorno.

 

A Petrobras informou que providenciou, a pedido do Ibama e da Marinha, equipamentos e vestimentas para o trabalho de limpeza. São 7 mil luvas, 6,8 mil botas, 8 mil óculos de segurança e 1,8 mil conjuntos de vestimentas.

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